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Nota técnica

Golpe de aríete: os seis momentos em que a rede rebenta

Uma conduta cheia de água em movimento tem inércia. Quando esse movimento é travado de repente, a energia tem de ir para algum lado — e vai para as paredes do tubo, para as juntas e para a bomba.

Cabeçal de filtragem: o início e o fim de cada ciclo de autolimpeza é um dos momentos críticos
Cabeçal de filtragem: o início e o fim de cada ciclo de autolimpeza é um dos momentos críticos

Não é acidente, é calendário

O golpe de aríete tem má fama de ser imprevisível. Não é. Numa instalação de rega ocorre em seis momentos identificáveis, e todos eles se sabem de antemão:

  1. No arranque da estação de bombagem. A coluna de água passa de parada a em movimento.
  2. Na paragem — voluntária ou por falha de energia. Esta é a pior, porque não é controlada.
  3. Na mudança de sector de rega, dentro do funcionamento automático. Uma válvula fecha, outra abre.
  4. Quando uma válvula automática não abre por qualquer motivo, e o caudal é obrigado a parar contra ela.
  5. No início e no fim do ciclo de autolimpeza dos filtros. Momento esquecido com frequência, e que se repete várias vezes por dia.
  6. Logo após uma rotura grave na conduta primária.

Quatro destes seis são operações normais que acontecem todos os dias. Não é uma eventualidade a acautelar — é uma solicitação de rotina a dimensionar.

O que a pressão faz quando não tem para onde ir

A sobrepressão de um golpe de aríete pode ultrapassar várias vezes a pressão de trabalho normal. O tubo dilata, as juntas trabalham, e a onda percorre a conduta em ambos os sentidos até a energia se dissipar.

Há um segundo efeito, menos falado e igualmente destrutivo: a depressão. Depois da sobrepressão vem a onda negativa, e se a pressão descer abaixo da tensão de vapor, forma-se uma cavidade de vapor dentro da conduta. Quando essa cavidade colapsa, as duas colunas de água chocam. É daí que resultam as roturas em pontos altos, que muita gente atribui a defeito do tubo.

O ar aprisionado piora tudo

O ar dentro de uma conduta comporta-se de forma traiçoeira. Sendo compressível, acumula-se nos pontos altos e funciona como um aumento de perda de carga — a rede fica com menos caudal sem razão aparente. E quando é expulso de repente, o fecho brusco da bolsa provoca um choque próprio.

É por isso que uma rede bem feita tem ventosas nos pontos altos. Não são um extra: são o que impede o ar de se acumular no enchimento e o que deixa entrar ar no esvaziamento, evitando o colapso do tubo por depressão.

Como se protege

  • Arranque e paragem progressivos. Um variador de frequência ou um arrancador suave elimina a maior parte do problema na origem, porque a velocidade da água nunca muda de repente.
  • Válvulas de retenção adequadas. Uma retenção que fecha tarde deixa a coluna inverter e bater; escolhe-se pelo tempo de fecho, não só pelo diâmetro.
  • Ventosas nos pontos altos e purgas nos pontos baixos.
  • Vaso de expansão ou reservatório hidropneumático, que absorve a onda em vez de a devolver.
  • Fecho lento das válvulas de sector, sobretudo na automação. Ganhar dois segundos no fecho custa nada e poupa a rede.

Nenhuma destas medidas é cara comparada com abrir uma vala para reparar uma conduta primária no meio da campanha.

Perguntas frequentes

Tenho roturas repetidas sempre no mesmo sítio. Pode ser aríete?

É a primeira hipótese a considerar, sobretudo se for num ponto alto da rede. A rotura repetida no mesmo local raramente é defeito do tubo — é uma solicitação que se repete.

Um variador de frequência resolve?

Resolve a maior parte, porque elimina o arranque e a paragem bruscos, que são dois dos seis momentos. Não resolve a falha de energia, em que o variador também pára; para essa continua a ser precisa protecção mecânica.

A minha instalação é pequena. Também se aplica?

A física é a mesma; a energia envolvida é que é menor. Numa rede curta e de pequeno diâmetro o problema é raramente crítico. A partir de algumas centenas de metros de conduta primária, passa a valer a pena calcular.

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